20 Maio, 2008

Uma ficção na hora do almoço: o palhaço.

- Tá rindo de quê? Eu tenho cara de palhaço?
- Nem pensar. Se existe algum palhaço aqui, sou eu.
- Olha, não tenho tempo pra esse papo-furado: passa também o dinheiro da carteira.
- Só tenho vale-transporte.
- Não interessa, passa assim mesmo.
- ...
- Quié, heim? Não tem medo de morrer? Essa sua risada já tá me dando nos nervos!
- É que é o quarto celular que me roubam e ainda nem acabei de pagar... Tudo isso é no mínimo cômico.
- Olha, cara, não é nada cômico ter um treisoitão apontado pra cabeça.
- Não, isso sim é trágico. Mas também não consigo parar de rir... Já acabou?
- Calma, boneca, esse teu relógio, esse cordão, brinco, esse tênis...
- Mas roubar tênis é tão década de 90, cara. Você acha mesmo que esse meu tênis vale alguma coisa? Ah, faça-me o favor: você tá me ofendendo.
- Ofendendo é o cacete, rapá. Passa essa porcaria que tu chama de tênis.
- Essa porcaria que não vale um centavo e que tu tá roubando? É pra já.
- Muito engraçadinho...
- A gente fazemo o que pudemo.
- Tá zoano a minha cara, mermão?
- Como o senhor é o dono da arma, sou obrigado a dizer que não, é impressão sua.
- Só não meto uma bala nessa tua fuça porque tem uns políça vindo pra cá. Age naturalmente. Age naturalmente.
- Você que tá dando a maior pinta segurando essa tralha toda. De longe dá pra ver que você tá me assaltando.
- Tu acha mesmo?
- Lógico, cara. Não tem como escapar dessa.
- ...
- Mas ai você pode fingir que está me vendendo e sai de fininho.
- Boa, cara, boa, e quanto que tu me paga por toda essa porcaria?
- Olha, só tinha aqueles vales...
- Verdade, cara, foi mal. Pega logo isso que eu vou vazar. E fica ai quietinho senão te enfio chumbo. Vazei.
- ...
- Ei, ei, ei, o senhor ai, tá preso por receptação de produtos roubados. Nos acompanhe, por favor.
- ...
- Tá rindo de quê, ô, safado? Eu tenho cara de palhaço?

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