25 Setembro, 2008

Um conto na madrugada - As flores.

Flores são bregas. Não gosto das flores no caixão. Não sei quem decidiu que essa era uma idéia de bom gosto. O morto é que não foi, acho. Aliás, o morto é quem menos possui culpa de alguma coisa - senão a de morrer - mas esse não é o grande pensamento do dia. As flores são.

Isso se for possível deixar o caixão aberto. Não sei onde esse cara vai querer atirar. Ele é o dono da arma, ele é o dono das regras. Minha única distração é tentar me lembrar se apaguei do computador uns arquivos que ninguém pode ler. Provavelmente, não. Todo mundo vai ler e isso não será nada bom. Vão saber que menti, e isso não será nada agradável. Vão saber que eu não gosto das flores... Não, não saberão. Ainda não escrevi sobre isso. Vão apenas perceber que sou um grandíssimo filho da puta e tudo será culpa desse ladrãozinho.

Ele interage comigo. Quer saber do meu dinheiro, do meu cartão. Esses pormenores que não possuo porque também podia estar roubando, podia estar matando, mas resolvi procurar um emprego - o que nem consegui. Um completo perdedor nas mãos de outro completo perdedor. A diferença é que ele continua possuindo uma arma, eu não. Disseram-me que conhecimento era uma espécie de arma, mas o meu está na sarjeta ali ao lado, numa meia dúzia de certificados que o ladrão arrancou-me e jogou fora. Vou morrer e ninguém vai saber que concluí meu inglês mês passado. Um perdedor nato.

Minha esposa vai hesitar em ir reconhecer meu corpo. Tenho certeza. É uma fresca. Depois ela vai descobrir que eu a traí e então não vai querer saber nem de mim, nem do meu velório, nem do caixão e muito menos das flores. Quem sabe eu seja um cara de sorte, então.

21 Setembro, 2008

Possuo trauma de uma traição passada.

Quer dizer, eu não, apenas o título deste post. Na verdade poderia intitular como “papo-furado em relacionamentos”, mas achei melhor utilizar a frase que costumo escutar bastante por ai – mais do que deveria.

Algumas pessoas podem me perguntar por que trato com desdém o trauma que nasce de uma traição, que é super natural alguém ficar defensivo depois de uns córneos na testa e que estou exagerando com meus ataques, blá. Tudo bem, por convenção, não chamarei mais de papo-furado, e sim de frescura.

Certo, você foi traído(a). Comeu o pão que o diabo amassou, ganhou uns chifres e levou um pé na bunda. E daí? Nada me estressa mais do que iniciar um relacionamento e a outra pessoa ficar naquele chove e não molha porque “acabou de sair de um caso muito sofrido, com doses cavalares de mentiras e adultério”. Novamente, e eu com isso?

O que realmente me incomoda nesse argumento é que ele não é tão inocente quanto parece. Na verdade, na maioria dos casos é o bom e velho “o problema sou eu” (aquele papo que ofende inteligência e sensibilidade da pessoa que está levando um fora) com uma pitada de “oi, estou bancando a vítima”.

Por que ouso dizer uma coisa dessas?

Porque imagine você, um(a) corno(a) necessitado(a), desiludido(a), conhecendo uma pessoa interessante, charmosa, sexy que lhe desperta uma paixão fulminante. Sabe quanto tempo você vai perder para discursar sobre o seu medo de se relacionar (bocejo) porque foi traído anteriormente? Nenhum.

A pessoa quando não está muito interessada no rolo é que possui um quase prazer de superestimar todos os problemas dessa encarnação e da encarnação anterior. Primeiro vai se dizer traumatizada, depois vai culpar o affair atual por uma provável sacanagem futura que ele ou ela ainda nem pensou em cometer. Tudo porque o problema não é a presença do chifre, mas a ausência do(a) antigo(a) responsável por ele, yeah.

Enquanto isso, o outro lado, o alvo das lamúrias e indecisões de um(a) coitadinho(a) recém saído de um dramalhão mexicano, só possui duas opções: entrar no jogo correndo o risco de se tornar também um choramingador profissional de pitangas ou sacanear exatamente como o sofredor inicial tanto temia (ok, estou brincando sobre essa segunda opção, mas o que você esperava? Um conselho de vá viver a sua vida e deixe de ser otário(a)?).