21 Outubro, 2008

Conceituando: Liberdade.

Parábola:
Próximo onde moro existe uma pizzaria que vende fatias de pizza ao invés da pizza inteira. A filosofia da empresa é a de que o consumidor deve possuir liberdade para experimentar diversos sabores, sem a imposição de pizzas grandes, maiores do que o que se deseja/consegue comer – ou então, predominantemente de um recheio que os outros escolheram. Certo dia, porém, resolvi pedir metade de uma fatia para saber até que ponto ia essa tal de liberdade. Resultado: a pizza da dimensão que eu queria não me foi vendida. Ou seja, comi a metade que consegui, mas paguei pela fatia inteira.

O que aprendemos com isso, crianças:
Se você vai chamar de liberdade, o problema é seu, apenas pague o preço da tabela, obrigada.

13 Outubro, 2008

Como lidar com taxistas de cidades estranhas em 10 lições.

Padroeira dos Passageiros de Táxi, olhai por nós.

Para quem não sabe, sou de Belém, mas desde semestre passado moro em Porto Alegre. Por não vir a passeio, precisei caçar emprego logo que pisei em terra gaúcha. Como a princípio não sabia andar através das linhas de ônibus daqui, preferi separar uma grana para ir às entrevistas de táxi mesmo. Já nos primeiros dias percebi que alguns taxistas estavam me enrolando quanto ao itinerário e, consequentemente, quanto ao valor da corrida. Era só notarem meu “sotaque de nordestina” (observação de um dos motoristas), para darem voltas desnecessárias pela cidade, me fazendo gastar bem mais do que eu poderia.

Assim, revoltada, mas ainda precisando do serviço, resolvi criar o manual que dá título a esse post. Vamos às lições:

Lição nº. 01: Em Roma, comporte-se como os romanos.
Isso quer dizer, trate de imitar o sotaque da região. Pode parecer absurdo, ridículo, mas o seu bolso vai agradecer, confie em mim. Sotaques diferentes do que o motorista está acostumado a escutar, são sinônimo de turista-com-dinheiro-pra-gastar (rimei sem querer, use como um mnemônico). Se você não for isso, trate de observar como o povo ao seu redor fala e imite igual quando for tratar com o motorista – se você não for 100% convincente, pelo menos irá confundi-lo.

Lição nº. 02: O Google Maps existe, use-o.
Só porque você vai de táxi não quer dizer que não precisa ter uma noção do buraco onde está se metendo. Não diga apenas “quero ir à rua tal, número tal”, diga “quero ir à rua X com a Y. Pode ir pela rua W”. Du-vi-dê-o-dó que ele não acredite ser você mais um dos milhares de nativos que sabem muito bem para onde querem ir.

Lição nº. 03: Jamais, em hipótese alguma, leia o endereço para o taxista.
Você não teve o maior trabalho em pesquisar as ruas e parecer um nativo para estragar tudo lendo o endereço, não é? Largue mão da má vontade e decore a sua rota.

Lição nº. 04: Não importa o quão mal-informado você esteja, o taxista não precisa saber disso.
Suponhamos que você só tenha informado o seu destino, mas sem dar maiores detalhes sobre qual caminho deseja tomar. Nesses casos, os taxistas costumam sugerir algumas rotas a serem decididas conforme o gosto do cliente. Mesmo que você não conheça quaisquer dos caminhos, respire fundo, escolha um deles e responda, “hmm, acho que hoje prefiro ir pela rota Z, por favor”.

Lição nº. 05: Pegue umas chaves.
“Hã, chave de quê?”. Não sei, qualquer uma. De preferência, algumas. O importante é que você faça barulho, mostre que está indo para um lugar familiar e que conhece o caminho tão bem que, se você já pegou as chaves para entrar na casa/escritório, é porque sabe que a rota a ser seguida não é tão longa.

Lição nº. 06: Avise alguém imaginário sobre algo no trajeto.
Para os que gostam de atuar, essa regra é a mais sofisticada. Aviste alguma placa na rua (pode ser promoção em loja, placa de aluguel/venda de imóvel etc.), ligue para um personagem imaginário e diga algo como, “fulano, sabe aquela promoção que vimos ontem naquela loja? Pois então, ainda está rolando. Acabei de passar aqui na frente. Vamos hoje?”.

Lição nº. 07: Se seu destino é um hotel, você deve ser a visita, nunca o hóspede.
"Como?" Simples. Mais uma vez você precisará de um amigo imaginário ao celular. “Alô, fulano? Estou chegando ai. Já ta pronto? Não? Pô, não esquece que tenho outro compromisso mais tarde...”. Sei lá, invente algo melhor que isso, você entendeu o espírito.

Lição nº. 08: Não dê papo.
Se o motorista for tão desconfiado quanto a pessoa que escreve esse texto, é capaz de iniciar uma conversa cheia de referências só para testar seu conhecimento sobre o território. Para não cair nessa armadilha – e ainda fugir de um potencial papo enfadonho – não saia de casa sem fones de ouvido plugados em algo que possa emular um MP3 player.

Lição nº. 09: Se o taxista diz que não conhece o caminho, estipule um valor.
Verdade ou não, você não é obrigado a pagar um preço absurdo porque o motorista não sabe por onde está andando. É quase certo que o endereço em questão é longe do bairro em que você pegou o carro (se você pesquisou no Google Maps anteriormente, terá esse dado com maior precisão), portanto, imagine uma quantia razoável, diga que você não saberia explicar o caminho, mas que está acostumada a percorrê-lo com outros motoristas e sempre paga o valor X.

Lição nº. 10: Não faça nada.
Pra quê? Relaxe, sente o traseiro no banco e aprecie a paisagem. Mas já adianto, essa última lição não foi a responsável por fazer uma mesma corrida, num mesmo dia da semana e horário passar de R$13,00 para R$9,50.

Update by Tiagón
Sendo em Porto Alegre, eu ainda daria mais uma dica: descubra um ponto de taxistas perto de onde você está baseado. Certifique-se de que é um ponto local, e não uma parada para radio-taxi (que esses concentram um grande número de salafrários. Você sabe se o ponto é local quando o endereço dele está adesivado na lateral do carro). Faça o contrário: fale com o responsável pelo ponto (geralmente quem atende o telefone), diga que está morando por perto, e que precisa de um serviço de confiança. 9 em 10 casos vão garantir não só honestidade, como também segurança e às vezes até um descontinho. Quanto mais tradicional e antigo o ponto, melhor; eles têm um nome a zelar, vagas neles são disputadas a tapa pelos taxistas, e em caso de qualquer suspeita de irregularidade, reclame - o chefe do ponto se responsabiliza, confere, indeniza, pune.

11 Outubro, 2008

Eu tenho um problema com o tempo.

Sou a filha mais velha da irmã mais nova de quatro portugueses bem mais velhos que minha mãe. Quando nasci, duas dessas tias tinham idade já de serem avós, caso tivessem tido filhos em idade hábil. Elas moram numa casa grande, com muitos quartos, porão, sótão, fotos de antepassados espalhadas pelos cômodos, imagens de santos, cheiro de vela e outras referências que não lembro ao certo. Ali também residem algumas plantas, criam-se galinhas e um papagaio. O piso da cozinha é vermelho; o do banheiro também, em contraste com os azulejos azuis nas paredes. Existe uma escola no fundo do quintal onde crianças de famílias humildes são alfabetizadas. Onde fui alfabetizada, a propósito. Quando nasci, em 1981, meus pais moravam num dos quartos dessa casa. Minhas duas tias, logicamente, em outros e um casal de tios e respectivos filhos nos restantes. Cresci cercada de primos, tios, crianças que freqüentavam a escolinha, e aquilo passou a ser tudo o que eu entendia por sociedade.

Nesse país particular, minha tia, além de professora, era a costureira responsável por todas as minhas roupas. Ela, no entanto, apertada de grana, inspirava-se apenas numas mesmas revistas compradas na década de cinquenta. Aqueles editoriais passaram a ser a minha referência e demorei anos para aceitar que as pessoas na rua é que estavam atualizadas, não eu.

Lembro também que, entre costuras, aulas, cascudos e castigos, elas costumavam falar muito mal do Salazar e da família real portuguesa como se todos ainda existissem. Aliás, elas possuiam um retrato da família real que, segundo conta uma lenda familiar, quase colocara um dos parentes na cadeia.

Nunca entendi muito bem essa história, o retrato não existe mais e eu sei que não pensei isso sozinha. O fato é que elas narravam causos de períodos em que não estávamos vivendo como se fossem os acontecimentos da semana, misturando personagens com toda licença poética que lhes cabia. Não à toa, na minha cabeça de menina de três anos que passou a seguir uma lógica tão bizarra quanto a delas, Salazar, a monarquia e todos os presidentes haviam morrido em abril de 85.

Desde então, cresci confundindo datas, nomes e agregando rostos despreocupadamente. Mas minha pior noção, sem dúvidas, ficou sendo a de tempo.

Os anos involutários "vividos" em décadas que não eram a minha, convivendo virtualmente com personagens de períodos ainda mais antigos, cercada por objetos ultrapassados num casarão antigo, desvirtuaram todo o meu relógio biológico. Hoje, por exemplo, acordei mais uma vez com a impressão de que estava cinco horas no passado e somente por isso, juro, que me atrasei, chefe.