11 Outubro, 2008

Eu tenho um problema com o tempo.

Sou a filha mais velha da irmã mais nova de quatro portugueses bem mais velhos que minha mãe. Quando nasci, duas dessas tias tinham idade já de serem avós, caso tivessem tido filhos em idade hábil. Elas moram numa casa grande, com muitos quartos, porão, sótão, fotos de antepassados espalhadas pelos cômodos, imagens de santos, cheiro de vela e outras referências que não lembro ao certo. Ali também residem algumas plantas, criam-se galinhas e um papagaio. O piso da cozinha é vermelho; o do banheiro também, em contraste com os azulejos azuis nas paredes. Existe uma escola no fundo do quintal onde crianças de famílias humildes são alfabetizadas. Onde fui alfabetizada, a propósito. Quando nasci, em 1981, meus pais moravam num dos quartos dessa casa. Minhas duas tias, logicamente, em outros e um casal de tios e respectivos filhos nos restantes. Cresci cercada de primos, tios, crianças que freqüentavam a escolinha, e aquilo passou a ser tudo o que eu entendia por sociedade.

Nesse país particular, minha tia, além de professora, era a costureira responsável por todas as minhas roupas. Ela, no entanto, apertada de grana, inspirava-se apenas numas mesmas revistas compradas na década de cinquenta. Aqueles editoriais passaram a ser a minha referência e demorei anos para aceitar que as pessoas na rua é que estavam atualizadas, não eu.

Lembro também que, entre costuras, aulas, cascudos e castigos, elas costumavam falar muito mal do Salazar e da família real portuguesa como se todos ainda existissem. Aliás, elas possuiam um retrato da família real que, segundo conta uma lenda familiar, quase colocara um dos parentes na cadeia.

Nunca entendi muito bem essa história, o retrato não existe mais e eu sei que não pensei isso sozinha. O fato é que elas narravam causos de períodos em que não estávamos vivendo como se fossem os acontecimentos da semana, misturando personagens com toda licença poética que lhes cabia. Não à toa, na minha cabeça de menina de três anos que passou a seguir uma lógica tão bizarra quanto a delas, Salazar, a monarquia e todos os presidentes haviam morrido em abril de 85.

Desde então, cresci confundindo datas, nomes e agregando rostos despreocupadamente. Mas minha pior noção, sem dúvidas, ficou sendo a de tempo.

Os anos involutários "vividos" em décadas que não eram a minha, convivendo virtualmente com personagens de períodos ainda mais antigos, cercada por objetos ultrapassados num casarão antigo, desvirtuaram todo o meu relógio biológico. Hoje, por exemplo, acordei mais uma vez com a impressão de que estava cinco horas no passado e somente por isso, juro, que me atrasei, chefe.

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