14 Abril, 2009
Sábado, quatorze.
Sim, você será assaltada. Eles não pararam ali por outra razão. Nem para pedir informação, nem para fuderem na parte mais escura da rua por onde você resolveu andar. Certamente, eles resolveram fuder, mas você. Ou melhor, a sua noite. Respire fundo, acalme-se. Pense na possibilidade daquela arma não ser de verdade. Aliás, nem pense nisso. Pense na parte do seu corpo que poderá resistir a uma balada. Não, não. Tudo em você parece ter amanhecido bastante vital. O que você traz na bolsa? Um batom preferido, um caderno de anotações com algumas idéias estúpidas, uma caneta, um celular descarregado, o que sobrou do salário, uns cartões, alguns de crédito e somente. E se você pegasse a arma? Você só foi a duas aulas de defesa pessoal. Alguém pode vir por trás e... Você não está sozinha, esquece! Enquanto a mulher coloca a trinta-e-oito na sua barriga, o homenzinho ameaça o seu namorado. Talvez o outro diabo também esteja armado, deve estar armado, você estaria se estivesse no lugar dele. Olhe para os lados, uns pivetes observam. Estagiários, na certa. Devem pensar, repletos de orgulho, “e quando for a minha vez com uma arma daquela?”. A arma não parece mesmo de verdade. Malditos chineses e suas réplicas de brinquedo. Você nem pode culpar os chineses, então você também pensa nos paraguaios, mas daí a sua bolsa já está longe. E eles ainda gritam ameaças, “vocês vão morrer”. Todos fazem isso. Você pára. No que pensar? Você pensa. Pessoas se aproximam. O que seria dessa vez? Testemunhas. “Conheço fulana”. “Conheço sicrano”. “Chama a polícia”. Que polícia? Você precisa é de um telefone. Precisa cancelar umas coisas, precisa bloquear outras. Precisa não entrar em pânico. O que você tinha mesmo dentro da bolsa? “Oi, mãe, tentaram me matar, mas agora já está tudo bem...”. Continua com os telefonemas. Você está determinada a dormir em paz: “o nosso sistema está fora do ar. tente amanhã pela parte da manhã. agradecemos a sua compreensão”. Boa sorte no resto da vida.
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